sábado, 23 de maio de 2015

Histórias e Históricos do Ciclismo - Jacques Anquetil


Quando comecei este blog, comecei não só pelo interesse no presente mas também pela curiosidade no passado.

Quem foram os grandes atletas do passado, Eddy Merckx, Joaquim Agostinho, quem mais?

Porque é que algumas montanhas são tão conhecidas? O que as torna tão emocionantes para quem as relata?

Como qualquer interessado pesquisei. Pesquisei na internet e vi que não é fácil encontrar as histórias por detrás das emoções.

Finalmente encontrei um
site, li, li, li e fiquei maravilhado!

O site é conduzido pelo Bill e pela Carol McGann, dois amantes do desporto, dois profissionais do desporto, que conhecem as histórias por dentro e por fora.

Ao ler, e adorar, as histórias por eles partilhadas, fiquei a pensar, "devem existir outros como eu", porém às vezes a preguiça de ler o inglês... Questionei-me então, "porque não partilhá-las em português? Com certeza também darão um brilho ao meu blog!" Com a autorização do Bill, irei partilhar convosco algumas das histórias que tanto me têm animado.

Começo com a do ciclista francês, Jacques Anquetil (1934-1987), também conhecido como Monsieur Chrono ou Maître Jacques.

Foto: bikeranceinfo.com - Giro d'Italia '60 - Anquetil (à direita) a ultrapassar Charly Gaul (à esquerda) num dos seus Contra-Relógios

Este é um texto do jornalista americano Owen Mulholland, sobre um dos seus maiores ídolos da modalidade. A tradução não será feita à letra, pois existem expressões e termos próprios da modalidade que são de difícil adaptação. Os itálicos serão da minha autoria.

"A visão de Jacques Anquetil em cima de uma bicicleta dá crédito a uma ideia que os americanos consideram intragável, a de uma aristocracia natural. Desde o primeiro dia em que se sentou em cima de uma, "Anq" teve um sentimento de encaixe perfeito que a maioria dos ciclistas passam uma vida a procurar. Entre 1950, ano de participação na sua primeira prova, e dezanove anos depois, quando se retirou, Anquetil registou inúmeras imagens da sua carreira, porém a sua pose indefinível estava nelas todas.

O olhar era de um galgo de corrida.Os seus braços e as suas pernas eram mais compridos que o normal, numa era de estradas marteladas pela II Guerra Mundial. E os seus dedos dos pés apontavam para o chão. Alguns anos antes, os corredores orgulhavam-se do seu movimento de tornozelo, mas Jacques foi o primeiro da escola das marchas/mudanças pesadas. O seu poder suave ditou toda a sua abordagem ao desporto. Com as mãos serenamente colocadas nas manetes dos seus travões Mafac, a jovem sensação de Quincampoix, Normandia, parece que vingou enquanto outros se contorciam desesperados para deixar tudo na mesma.

Com a tenra idade de dezanove anos (1953), Jacques "mergulhou" no lado profissional do desporto, convencido de que esta decisão seria bem mais rentável monetariamente que apanhar morangos. Ele não estava errado.

A sua primeira corrida com as cores da La Perle Bicycles foi o Grande Prémio das Nações (extinto em 2005), o mais famoso e difícil de todos os Contra Relógios. Com 140 km. tinha cerca do dobro da distância dos dias de hoje (início do séc. XXI). Destemido, Anq liderou do início ao fim, a lenda tinha começado.

Essa lenda veio a ser composta maioritariamente por corridas a solo contra o relógio e vitórias em tours. Também significante, com duas excepções, é que não haviam grandes vitórias em corridas de um dia (Clássicas) nessa lista. Jacques nunca escondeu o seu desprezo por essas corridas. Ele temia o perigo  de esfolar os cotovelos em pelotões e os ataques explosivos dos seus rivais. Isto era tudo tão... ordinário/plebeu.

A sua natural auto-confiança adivinharia um parto em Versalhes dois anos antes. Logo depois de Jacques vencer pela primeira vez nas "Nações", Louison Bobet (Estrela francesa da época) apressou-se a chegar junto dele e congratulá-lo. "Grande corrida. Muito prazer em conhecê-lo." disse Bobet, enquanto lhe estendia a mão para o cumprimentar.

"Mas nós já nos conhecíamos." Anquetil respondeu. "Venci-te  no último domingo numa corrida de perseguição."

Os espectadores engasgaram-se, mas os dois "grandes" entenderam. Anquetil não tinha intenção de ofender e Bobet não se sentiu ofendido.

Em Novembro, o normando deslocou-se até à Itália para o Troféu Baracchi. Pelo caminho ele visitou o ciclista mais famoso daquela era, Fausto Coppi. Coppi era mais do que hospitaleiro. Ele revelou toda a sua abordagem que enfatizava uma disciplina rigorosa. Fausto concluiu esse encontro convidando Anquetil para viver com ele. Quem não ficaria sem palavras? Anquetil estava certamente tocado, mas usando os seus pretextos ele seguiu. Mesmo enquanto ele caminhava para o carro ele sussurrava, "Eu sei que tenho que ir para a frente sozinho."

Numa carreira que incluiu a vitória de todas as Grandes Voltas (5 Tours de France, 2 Giri d'Italia, 1 Vuelta a España), nove Grandes Prémios das Nações, o Recorde da Hora (duas vezes, com onze anos de diferença), e uma quantidade quase incontável de outros eventos, é difícil escolher entre tantos grandes momentos.

Durante a maior parte da sua carreira ele venceu tours de uma forma "quieta", pouco apreciada pelo público. Ele era capaz de ficar perto dos seus rivais por semanas, e atacar num Contra-Relógio. O seu método do "apenas o suficiente" não apaziguou aqueles que tomavam movimentos arrojados. Quando Anquetil era o mais dominante, dominando o Tour de France '61 do primeiro ao último dia, ele foi acusado de ser o ciclista que "ninguém consegue derrubar, mas aquele que não consegue derrubar ninguém".

Os organizadores do Tour, sempre sensíveis às críticas, foram reduzindo progressivamente os Contra-Relógios e aumentando a quantidade de montanhas. Em 1963 Jacques sabia que teria de alterar os seus planos. Depois dos Pirinéus e dois Contra-Relógios, Jacques puxava  o grande trepador espanhol, Frederico Bahamontes. Com os Alpes ainda por vir os Anquetilistas estavam preocupados com o seu homem. A maior etapa Alpina em Chamonix marcava uma nova montanha, a excessiva, rocha do Col de Forclaz. Esta vinha depois de dois outros monstros de primeira categoria. Anq e Baha montaram 42x26, mudanças normalmente vistas em bicicletas de turistas.

Quando a "Águia de Toledo" fez o seu esperado ataque só um homem poderia pará-lo. Esse era o novo Jacques Anquetil, pedalando como ele sabia que devia. Jacques estava tão no controlo que ele nem tentou responder a nenhuma aceleração do espanhol. Em vez disso, Anq manteve um ritmo constante que trouxe Baha de volta como um peixe no anzol. No cume Anquetil estava de facto a ditar o passo. Ele sabia que tinha a etapa e a prova, na bagagem. Ele também tinha uma nova popularidade.

Só havia um pequeno problema. Ele tinha feito a subida na sua bicicleta leve de Contra-Relógio, que era considerada demasiado frágil para a descida selvagem coberta de cascalho. Mas as regras do Tour não permitiam troca de bicicleta por qualquer motivo que não fosse avaria mecânica. O astuto manager de Anquetil, Raphael Geminiani, tinha a solução.

Com o topo à vista Jacques fez o olhar para Gem. Jacques gritou, "O meu desviador!"

"Merda!" respondeu Geminiani, alto o suficiente para que um oficial de corrida que estivesse de passagem escutasse. "Ele partiu o desviador!"

O mecânico saltou do carro, com uma bicicleta sobressalente na mão. Enquanto segurava na mão a nova bicicleta para Jacques, o mecânico com um cortador de arame cortou o cabo do lado contrário aos júris. Os júris não viram nada e Anquetil foi empurrado para seguir o seu caminho. Um exemplo perfeito do lema para o sucesso do fundador do Tour, Henri Degranges, "Tete et Jambes" (Cabeça e Pernas").

A partir daquele dia, Anquetil, acompanhado de Geminiani, seguiram juntos para mais vitórias criativas. Em 1964 ele tornou-se o único ciclista, a par de de Fausto Coppi, a vencer Giro e Tour no mesmo ano. Em 1965 ele venceu o Dauphiné-Liberé, uma semana dura de etapas longas, seguiu-se uma hidromassagem, pela França, na noite da última etapa, dormiu 4 horas, e começou de novo a pedalar na escuridão e chuva das 4 da manhã nas 365 milhas do Paris-Bordeaux. E ainda perguntam o resultado? Claro que Anquetil venceu.

Jacques participou na sua última Grande Volta em 1967. Foi um Giro d'Italia, ele conseguiu apenas a terceira posição, e tornou-se uma vítima do jovem italiano em ascensão, Felice Gimondi. Terminava nesse mesmo ano, em sétimo, uma nova estrela em ascensão da nova geração, Eddy Merckx.

Merckx e Anquetil foram os mestres das suas gerações. Merckx, obviamente, tentou ganhar tudo, sempre. Algo difícil de lidar era com a mentalidade de Jacques. Uma qualidade partilhada por ambos era a sua capacidade de sofrer nos seus raros dias maus. É fácil vencer quando te sentes bem e todos se têm complexos acerca da tua força. Mas preservar isso quando o mito é desfeito, quando o campeão é exposto enquanto mero mortal, depois de tudo, passa a ser possível medir os verdadeiros limites do homem.

Anquetil teve um ponto particularmente baixo no final de 1962. O seu treino tinha afunilado depois do Tour e no fim de Outubro ele estava longe da sua melhor forma. Mas o contracto com o Troféu Baracchi já tinha sido assinado; não havia como virar as costas à obrigação. O Troféu é um Contra-Relógio de dois homens (equipa), e em oito tentativas Jacques nunca o havia ganho. Alguma coisa sobre a mudança no ritmo, enquanto alternava a liderança, era perturbador para ele.

O seu parceiro era Rudi Altig, um formidável ciclista alemão. (Por exemplo, Altig venceu Merckx no Contra-Relógio de abertura do Tour de France '69.) Rudi marcou o ritmo logo no início a 47km/h! A equipa mais próxima levava cinco minutos de atraso, mas o jovem alemão nunca abrandou.

Depois de 70 km. Jacques não aguentava mais. Isso deixou todo o seu talento apenas a seguir na roda de Rudi. 40 km., quase uma hora de purgatório pela frente. Por mais 20 km. Rudi permaneceu naquele ritmo infernal. Depois, de repente, ele sentiu que Jacques estava a fugir da sua roda. Altig colocou-se de lado, deixou Jacques passar, e depois voltou a sprintar para junto de Jacques e o empurrou de volta para a velocidade (tudo isto em 52x13) antes de resumir o seu lugar na frente, mas sempre encorajando. Quanto mais Altig sentia que essa corrida podia ser perdida mais maluco ele ficava. Ele empurrou Anquetil inúmeras vezes, Foi sem dúvida sobre-humano.

Anquetil nunca pensou desistir. "Eu estava confuso." ele admitiu mais tarde. "Eu só conseguia distinguir formas vagas. Tudo o que eu procurava era proteger-me na roda de Altig."

À entrada do velódromo para o final era necessário atravessar um túnel por debaixo das bancadas e depois curvar para entrar na pista. Jacques não fez a curva. Ele foi directo contra um poste dos telefones. Felizmente, os tempos foram tirados na entrada do velódromo. O relógio mostrava que Altig-Anquetil haviam ganho de forma confortável, mas o que Jacques ganhou nesse dia, para não mencionar os seus fãs e adversários, foi uma valorização completa das suas capacidades."

Texto retirado do site Bikeraceinfo.

As suas maiores conquistas foram:
1956: Recorde da Hora
1957: 1º CG e 4 etapas do Tour de France; 1º CG do Paris-Nice
1958: 1º CG do 4 dias de Dunkerke
1959: 3º CG do Tour de France; 2º CG do Giro d'Italia e 2 etapas; 1º CG do 4 dias de Dunkerke
1960: 1º CG do Giro d'Italia com 2 etapas
1961: 1º CG do Tour de France; 2º CG do Giro d'Italia; 1º CG do Paris-Nice
1962: 1º CG do Tour de France
1963: 1º CG do Tour de France; 1º CG da Vuelta a España; 1º CG do Dauphiné Libéré; 1º CG do Paris-Nice
1964: 1º CG do Tour de France; 1º CG do Giro d'Italia; 1º CG do Gent - Wevelgem
1965: 1º CG do Paris-Nice
1966: 1º CG do Liège-Bastogne-Liège; 1º CG do Bordeaux-Paris; 3º CG do Giro d'Italia; 1º CG do Dauphiné Libéré; 1º CG do Paris-Nice
1967: 3º CG do Giro d'Italia
1969: 1º CG do Tour do País Basco
Grande Prémio das Nações: 1953-58, 1961, 1965-66
Super Prestige Pernod International: 1961, 1963, 1965-66

Espero que tenham gostado tanto quanto eu!

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